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Por Raquel Guimarães

Ainda que o Brasil seja em sua maioria constituído por pessoas negras, suas existências são marcadas por uma série de desigualdades que incidem diretamente sobre seus cotidianos. Em razão disso, em 2009 o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), ao identificar que a população negra vivencia condições de vida que originam de injustos processos sociais, culturais e econômicos presentes na história do País. O racismo, em todas as suas instâncias, passa a ser percebido como um determinante social em saúde. Dessa forma, quando buscamos refletir sobre saúde mental e emocional da população negra precisamos ter clareza, ou quem sabe escureza – termo que representa uma perspectiva de enegrecimento do olhar – que o racismo produz efeitos nocivos na forma como pessoas negras se relacionam com o mundo.

O psicólogo negro Lucas Veiga, ao falar sobre a abordagem da psicologia preta, argumenta que o Brasil é um país antinegro (VEIGA, 2019), o que resulta em um processo desafiador de identificação de si mesmo, reconhecimento da sua história coletiva, desenvolvimento do senso de pertencimento e espaço para viver com plenitude os seus direitos assegurados. Para a população negra, o Brasil é um lugar de desassossego, que direciona as pessoas de cor as estatísticas alarmantes de saúde mental, tal como: 45% maior as chances de um adolescente ou jovem negro cometer suicídio, sendo as potenciais causas associadas os sentimentos de inferioridade e de incapacidade, a rejeição, violência e solidão. Silva (2005) traz elementos que reforçam essas problemáticas ao evidenciar que a incessante exposição das pessoas as consequências do racismo, podem estimular inúmeros processos de desorganização e desequilíbrio em aspecto psíquico e emocional, motivando o surgimento de transtornos como ansiedade, depressão, taquicardia, úlcera gástrica, hipertensão arterial, dificuldades para compartilhar sentimentos e ataques de raiva violenta.

É fundamental destacar que a população preta e parda são os principais alvos de violências, a chance de pessoas negras serem assassinadas em solo brasileiro é 2,6 maior que a taxa de pessoas não negras (ATLAS DA VIOLÊNCIA, 2021). Dessa forma, é possível compreender que as violências estruturais afetam o direito mais básico do ser humano: o direito à vida.  O que produz incertezas à comunidade negra sobre suas possibilidades de frequentar espaços, se locomover pela cidade e de simplesmente existir. Como é possível estar em equilíbrio com a saúde mental, sem suporte, vivenciando tantos medos e aflições? Neste sentido, é imprescindível que se possa olhar para a saúde mental da população negra de forma racializada, entendendo que muitos processos de sofrimento intenso resultam destas desigualdades e violências.

Não há mais espaço para que as queixas de pessoas negras sejam vistas como de pouca importância ou mesmo sejam reduzidas a “besteiras”. O racismo é um problema social, assim como também as questões que originam desta estrutura. Logo, é preciso que todos estejam atentas e atentos às maneiras de combater esse problema, de não reproduzi-lo e de proporcionar espaços seguros para que as pessoas de cor possam acessar espaços e materiais de suporte emocional que considerem suas especificidades. Neste novembro negro, mês que comemoramos o dia Nacional da Consciência Negra, que tenhamos consciência coletiva que o racismo é uma ferida que dói no corpo e na mente, que produz sequelas profundas.

A busca por um mundo mais gentil e de uma “sociedade solidária e feliz” para todos passa por não silenciar e negar a existência de dores históricas, de não culpabilizar pessoas por seus sofrimentos e nem de estigmatizá-los. Ser saudável é estar muito além de não ter doenças, por isso o esforço tem que ser coletivo. É preciso agir, ampliar a participação de jovens e crianças no debate e promover ações concretas no âmbito das políticas públicas de garantia de direitos, para que o estado de bem-estar biopsicossocial seja realmente possibilitado para todos e todas da comunidade negra .

Como disse o Cantor Emicida em sua música principia: “Tudo, tudo, tudo, tudo que nóis tem é nóis”.

Referências:
CVV: https://www.cvv.org.br/blog/saude-mental-da-populacao-negra/

DAMASCENO, Marizete Gouveia; ZANELLO, Valeska M. Loyola. Saúde Mental e Racismo Contra Negros: Produção Bibliográfica Brasileira dos Últimos Quinze Anos.Psicol. cienc. prof.,  Brasília ,  v. 38, n. 3, p. 450-464,  Sept.  2018 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932018000300450&lng=en&nrm=iso>. access on  01  Mar.  2020.  https://doi.org/10.1590/1982-37030003262017.

IPEA:https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/1375-atlasdaviolencia2021completo.pdf

MINISTÉRIO DA SAÚDE: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/obitos_suicidio_adolescentes_negros_2012_2016.pdf

Silva, M. L. (2005). Racismo e os efeitos na saúde mental. In: L. E. Batista, S. Kalckmann (Orgs.), Seminário saúde da população negra do Estado de São Paulo 2004 (pp. 129-132). São Paulo, SP: Instituto de Saúde. Silvério, V. R., & Trinidad, C. T. (2012). Há algo novo a se dizer sobre as relações raciais no Brasil.

Them and Me — The Care and Treatment of Black Boys in America, Kevin M. Simon, M.D.

VEIGA, L. M. Descolonizando a psicologia: notas para uma Psicologia Preta. Fractal: Revista de Psicologia, Niterói, RJ, v. 31, n. esp., p. 244-248, set. 2019. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/fractal/a/NTf4hsLfg85J6s5kYw93GkF/?lang=pt>.

Raquel Guimarães, é psicóloga, integrante do Coletivo Preto Virgínia Leone Bicudo e colaboradora na ASEC na mobilização e coordenação da equipe da iniciativa Geração Zelo.