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Para contar uma historinha

dessas que nos faz esperançar

devo relatar que nunca é demais

no próximo acreditar.

Se você nunca pensou em como suas emoções compartilhar

deve atentar

pois a partilhar te dará um novo despertar

desde que os olhos fiquem bem abertos e

ouvidos fiquem bem atentos, para assim poder se conectar.

No Projeto Passaporte: Habilidades para a vida vi tudo isso acontecer

Com vozes, ouvidos, corpos e mentes em ação,

Juntinhos num aspiral em profusão.

Nem sempre é fácil fazer um relato. Mesmo que sua estrutura textual seja simples, há no ato de contar algo a interferência da memória e do tempo. Estes aspectos acabam por evidenciar mais as emoções do que as vivências que conseguimos guardar em nós. Este relato será assim, talvez mais emocional que temporal, pois não se presta a ser um relato de bordo, presta-se a ser um relado das emoções.

Eu e o Prof. Hugo Monteiro nos apresentamos na Escola Municipal Prof. Nilo Pereira, em 2019. Esta escola é de tempo integral. Possui boas instalações físicas, como, por exemplo, ar condicionado em todas as salas de aula, algo extremamente relevante para o aprendizados dos alunos, uma vez que Recife é uma cidade de temperaturas elevadas durante o ano todo e também fornece várias refeições ao estudantes, incluindo almoço. Chegamos no turno da tarde, após o almoço.

Não foi fácil nos aproximar dos adolescentes. Lembro que o Prof. Hugo ao iniciar sua fala, de forma muito didática, apresentando o que era o Programa Passaporte: Habilidades para a vida, foi estudando aos pouco as reações, ao passo que caminhava e falava. Durante o convite para participar foi necessário acalmar, para que pudessem ouvir. Essa foi a primeira impressão, eles não estavam ouvindo, agitados e ansiosos para saber o que nós fazíamos ali, quem éramos e uma infinidade de indagações que passavam por suas cabeças. Mesmo que essas indagações estivessem sendo respondidas pelo Prof. Hugo, eu observava que não eram capturadas por eles, tamanha era a agitação dos corpos e das mentes na sala.

O caminho foi longo. Primeiro acalmá-los, depois fazê-los se envolver como as atividades de leitura, colocá-los no desafio das personagens e assim auxiliá-lo no reconhecimento dos próprios desafios, foi complexo. Nesta jornada, muitos dias saí da escola com a sensação de ter dado um passo para trás. Como professora, poucas vezes havia sentido isso, essa frustração não era confortável, porque me desafiava a fazer diferente e também a observar como meu parceiro também ia buscando outras alternativas para conduzir suas as ações.

O grupo foi sendo reduzido, muitos alunos não quiseram permanecer, mas por incrível que pareça, os que ficaram eram justamente aqueles que realmente precisavam. E com o passar dos dias estávamos conhecendo um pouco mais sobre suas vidas, seus sonhos. Quando chegamos, a violência estava escancarada, de várias formas, na forma como se dirigiam uns aos outros, na forma como usavam seus corpos e suas vozes, nos olharem e nos comentários depreciativos sobre si mesmos e sobre os demais colegas. Essa desconstrução, para mim, foi o maior desafio, porque algumas vezes também fui vítima dessa violência. E esses comportamentos sempre me levaram a expor com eles o porquê e quais os sentimentos ali estavam sendo materializados. Também me expus, também fiquei vulnerável. Foi necessário, digo mais, foi fundamental. Numa situação específica, uma aluna foi grosseira comigo, fique magoada e imediatamente expus isso. Falei da minha frustração, falei que não merecia aquele tratamento porque sempre havia sido respeitosa com ela e não era o que esperava receber de volta. Na aula seguinte, ela estava lá e se desculpou na frente do grupo.

Neste caminho, com acertos e erros, o Passaporte cumpriu o seu papel, este pequeno grupo impactou a sala inteira, não apenas apresentando resultados acadêmicos melhores, mas nas relações em sala de aula. Os professores relataram que as notas melhoraram, mas que sobretudo, a turma, de comportamento mais turbulento passou a ser mais cooperativa, mais respeitosa e mais concentrada. O término desta experiência, para mim, não deveria ser com a entrega dos certificados, que fizemos em um momento de muita alegria, com bolo e refrigerante, mas com a minha volta à escola, para reencontrá-los e poder receber, deles, um relato de como estão caminhando. No entanto, 2020 trouxe-nos um contexto imprevisível e este final, para mim, ficou como uma porta entreaberta.

Profa. Ana Maia.

Ana Lucia Machado Maia, de Recife – PE, mãe e professora. Implementou, em 2019, o Programa Passaporte: Habilidades para a vida para um grupo de adolescentes e testemunhou despertares para o autocuidado.