Por Angelina Pandita Pereira

A transição da infância para a vida adulta é um período marcado por muitas mudanças, tanto físicas quanto psicológicas e sociais, as quais dependem do contexto social em que cada sujeito está inserido[1]. Na atualidade, chamamos este período de adolescência, por vezes dividida em pré-adolescência, adolescência e juventude. Neste texto nos referiremos às mudanças características do início da adolescência, tendo como referência os 11 anos de idade, entendendo que esta marca etária pode ter muitas variações. 

No que se refere às mudanças físicas, um marco importante é a puberdade, em que há o aumento significativo da produção de determinados hormônios, que culminam, dentre outras coisas, no amadurecimento dos órgãos sexuais, crescimento de pelos, aumento da oleosidade (e o consequente aparecimento das espinhas) e crescimento acelerado do corpo. Neste período o corpo muda, sendo que as meninas vivem sua primeira menstruação e veem seu corpo adquirir novas curvas. Nos meninos inicia a produção do esperma e há mudanças no tom da voz, que se torna mais grave. Como cada parte do corpo segue diferentes ritmos de desenvolvimento, algumas partes podem ficar fora de proporção por algum tempo, deixando os adolescentes “desajeitados” (MARTORELL, 2014). 

A adolescência é ainda um período de reconhecimento da identidade e orientação sexual (como me identifico e por quem me atraio são questões que permeiam a vivência do adolescente), período no qual muitas vezes ocorrem os primeiros relacionamentos amorosos. 

Ainda, este período é acompanhado de uma série de expectativas e cobranças sociais por mais responsabilidade e independência. Um exemplo disso são as mudanças vividas na transição do 5° para o 6° ano escolar, em que os adolescentes passam de ter um professor como sua principal referência na escola para ter diversas matérias e professores, o que lhes exige maior responsabilidade e autocontrole de seu comportamento, seja para lidar com as diferenças no perfil dos professores, seja para lidar com o necessário aprofundamento em cada conteúdo escolar. 

Neste momento da vida as exigências sociais podem parecer bastante ambíguas aos adolescentes, uma vez que não são mais crianças, mas também não são adultos, e ora são considerados muito novos para realizar algumas coisas (“você é muito novo para 

isso”) e ora são considerados muito velhos para terem determinados comportamentos (“você não é mais criança”, ou “você já é bem grandinho pra isso”). 

Todas estas mudanças desencadeiam um período de experimentação em que o modelo e a aprovação do grupo de pares é mais importante do que de autoridades como pais e professores (ELKONIN, 1969). Assim, a relação com os amigos passa a ter um papel central no desenvolvimento dos adolescentes, o que pode se tornar um fator de proteção, mas também um fator de pressão para assumir determinados comportamentos. Na atualidade, por vezes, esta pressão se intensifica pela influência da mídia e das redes sociais. 

Assim, este é um período em que o adolescente está se ajustando a muitas mudanças do seu corpo e das relações nas quais está inserido. Isso suscita muitos sentimentos, que podem ser desencadeadores de estresse, frustrações e conflitos com os outros e consigo mesmo. Os adolescentes são colocados, diariamente, frente a escolhas de como lidar com tudo isso que vivenciam. Ficam as perguntas: Como podemos contribuir para que os adolescentes façam escolhas que não prejudiquem nem a eles nem aos outros? 

Como promover o desenvolvimento de uma identidade autônoma em nossos adolescentes? 

Como já vinhamos discutindo no blog, um dos caminhos é a educação emocional e social. Reconhecer os próprios sentimentos, buscar um amplo leque de estratégias para lidar com os mesmos, contar com os amigos e também ser um apoio para eles, além de desenvolver estratégias para realizar boas escolhas empodera o sujeito para lidar com os desafios que surgem na vida. A adolescência, enquanto um período de descoberta e consolidação da identidade, é bastante propícia para este aprendizado acontecer. Programas estruturados, como o Passaporte: Habilidades para a Vida, podem ser valiosos aliados neste processo. Vamos juntos, facilitar o desenvolvimento emocional e social dos adolescentes? [1] Quando falamos em desenvolvimento humano é preciso antes de tudo considerar que este desenvolvimento se dá frente a condições históricas e sociais que as condicionam. Assim, na história da humanidade, a existência de uma fase nomeada como adolescência é recente. Áries (1978) esclarece que até o século XVIII a concepção de adolescência não existia e, na concepção social, o sujeito passava da infância diretamente à fase adulta. Ainda, as experiências que caracterizam a adolescência na atualidade também dependerão do contexto e da posição social que cada sujeito ocupa. Falar de um adolescente de classe média alta é muito diferente de falar de um adolescente trabalhador. As vivências que cada um experimenta e as cobranças sociais que a eles são feitas divergem e são desiguais. Como falar de adolescência para um sujeito que com 11 anos já é arrimo de família e em muitos aspectos experimenta as cobranças que são feitas aos adultos? Assim, quando falamos de períodos do desenvolvimento humano é preciso considerar que fazemos uma generalização em relação àquilo que é esperado socialmente para um determinado período, mas não podemos nos esquecer que no contato com cada sujeito, ou cada grupo social, é preciso considerar suas especificidades. 

Referências 

Ariès, P. História Social da Criança e da Família. Rio de. Janeiro: Zabar Editores,1978. 

ELKONIN, D. Desarrollo psiquico de los escolares. In: SMIRNOV, A. A. et 

  1. Psicologia. Mexico:Grijalbo, 1969. p. 523 – 560.

MARTORELL, G. O desenvolvimento da criança: do nascimento à adolescência. Porto Alegre: AMGH, 2014, p. 275-329. 

 

Angelina Pereira Pandita 

Psicóloga e Professora de Psicologia. Doutora e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Docente na Universidade Anhembi-Morumbi, e anteriormente nas Faculdades Integradas de Guarulhos. Atuou como monitora na Associação pela Saúde Emocional de Crianças. 

 

Por Angelina Pandita Pereira

A transição da infância para a vida adulta é um período marcado por muitas mudanças, tanto físicas quanto psicológicas e sociais, as quais dependem do contexto social em que cada sujeito está inserido[1]. Na atualidade, chamamos este período de adolescência, por vezes dividida em pré-adolescência, adolescência e juventude. Neste texto nos referiremos às mudanças características do início da adolescência, tendo como referência os 11 anos de idade, entendendo que esta marca etária pode ter muitas variações. 

No que se refere às mudanças físicas, um marco importante é a puberdade, em que há o aumento significativo da produção de determinados hormônios, que culminam, dentre outras coisas, no amadurecimento dos órgãos sexuais, crescimento de pelos, aumento da oleosidade (e o consequente aparecimento das espinhas) e crescimento acelerado do corpo. Neste período o corpo muda, sendo que as meninas vivem sua primeira menstruação e veem seu corpo adquirir novas curvas. Nos meninos inicia a produção do esperma e há mudanças no tom da voz, que se torna mais grave. Como cada parte do corpo segue diferentes ritmos de desenvolvimento, algumas partes podem ficar fora de proporção por algum tempo, deixando os adolescentes “desajeitados” (MARTORELL, 2014). 

A adolescência é ainda um período de reconhecimento da identidade e orientação sexual (como me identifico e por quem me atraio são questões que permeiam a vivência do adolescente), período no qual muitas vezes ocorrem os primeiros relacionamentos amorosos. 

Ainda, este período é acompanhado de uma série de expectativas e cobranças sociais por mais responsabilidade e independência. Um exemplo disso são as mudanças vividas na transição do 5° para o 6° ano escolar, em que os adolescentes passam de ter um professor como sua principal referência na escola para ter diversas matérias e professores, o que lhes exige maior responsabilidade e autocontrole de seu comportamento, seja para lidar com as diferenças no perfil dos professores, seja para lidar com o necessário aprofundamento em cada conteúdo escolar. 

Neste momento da vida as exigências sociais podem parecer bastante ambíguas aos adolescentes, uma vez que não são mais crianças, mas também não são adultos, e ora são considerados muito novos para realizar algumas coisas (“você é muito novo para 

isso”) e ora são considerados muito velhos para terem determinados comportamentos (“você não é mais criança”, ou “você já é bem grandinho pra isso”). 

Todas estas mudanças desencadeiam um período de experimentação em que o modelo e a aprovação do grupo de pares é mais importante do que de autoridades como pais e professores (ELKONIN, 1969). Assim, a relação com os amigos passa a ter um papel central no desenvolvimento dos adolescentes, o que pode se tornar um fator de proteção, mas também um fator de pressão para assumir determinados comportamentos. Na atualidade, por vezes, esta pressão se intensifica pela influência da mídia e das redes sociais. 

Assim, este é um período em que o adolescente está se ajustando a muitas mudanças do seu corpo e das relações nas quais está inserido. Isso suscita muitos sentimentos, que podem ser desencadeadores de estresse, frustrações e conflitos com os outros e consigo mesmo. Os adolescentes são colocados, diariamente, frente a escolhas de como lidar com tudo isso que vivenciam. Ficam as perguntas: Como podemos contribuir para que os adolescentes façam escolhas que não prejudiquem nem a eles nem aos outros? 

Como promover o desenvolvimento de uma identidade autônoma em nossos adolescentes? 

Como já vinhamos discutindo no blog, um dos caminhos é a educação emocional e social. Reconhecer os próprios sentimentos, buscar um amplo leque de estratégias para lidar com os mesmos, contar com os amigos e também ser um apoio para eles, além de desenvolver estratégias para realizar boas escolhas empodera o sujeito para lidar com os desafios que surgem na vida. A adolescência, enquanto um período de descoberta e consolidação da identidade, é bastante propícia para este aprendizado acontecer. Programas estruturados, como o Passaporte: Habilidades para a Vida, podem ser valiosos aliados neste processo. Vamos juntos, facilitar o desenvolvimento emocional e social dos adolescentes? [1] Quando falamos em desenvolvimento humano é preciso antes de tudo considerar que este desenvolvimento se dá frente a condições históricas e sociais que as condicionam. Assim, na história da humanidade, a existência de uma fase nomeada como adolescência é recente. Áries (1978) esclarece que até o século XVIII a concepção de adolescência não existia e, na concepção social, o sujeito passava da infância diretamente à fase adulta. Ainda, as experiências que caracterizam a adolescência na atualidade também dependerão do contexto e da posição social que cada sujeito ocupa. Falar de um adolescente de classe média alta é muito diferente de falar de um adolescente trabalhador. As vivências que cada um experimenta e as cobranças sociais que a eles são feitas divergem e são desiguais. Como falar de adolescência para um sujeito que com 11 anos já é arrimo de família e em muitos aspectos experimenta as cobranças que são feitas aos adultos? Assim, quando falamos de períodos do desenvolvimento humano é preciso considerar que fazemos uma generalização em relação àquilo que é esperado socialmente para um determinado período, mas não podemos nos esquecer que no contato com cada sujeito, ou cada grupo social, é preciso considerar suas especificidades. 

Referências 

Ariès, P. História Social da Criança e da Família. Rio de. Janeiro: Zabar Editores,1978. 

ELKONIN, D. Desarrollo psiquico de los escolares. In: SMIRNOV, A. A. et 

  1. Psicologia. Mexico:Grijalbo, 1969. p. 523 – 560.

MARTORELL, G. O desenvolvimento da criança: do nascimento à adolescência. Porto Alegre: AMGH, 2014, p. 275-329.